Mitos, verdades e inverdades: o que sabemos e devíamos saber sobre as hepatites

É fácil, em Portugal, fazer o teste de diagnóstico das hepatites. “Os testes de rastreio são acessíveis através de qualquer serviço de saúde, nomeadamente nos centros de saúde”, confirma Arsénio Santos, coordenador do Núcleo de Estudos das Doenças do Fígado (NEDF) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. E acrescenta que “foram já legisladas e estão em implementação medidas que facilitam o acesso aos testes, podendo as pessoas interessadas recorrer diretamente às farmácias comunitárias e aos laboratórios de análises clínicas, sem necessidade de prévia prescrição médica”. Ainda assim, continuam a existir no País casos por diagnosticar – e por tratar – de Hepatite B e C, assim como subsistem mitos e inverdades que importa deitar por terra, reforça o especialista, por ocasião do Dia Mundial das Hepatites, que se assinala a 28 de julho.

A saliva é uma forma de transmissão das hepatites, assim como os apertos de mão, os beijos ou os espirros? A questão surge frequentemente, transformada já num mito sem fundamento. “Apenas o relacionamento sexual sem proteção (preservativo) é fator de risco significativo para as hepatites virais B e C”, esclarece Arsénio Santos. “O contacto pessoal social e situações como o beijo ou o espirro não são fatores de risco reconhecidos e não devem ser desaconselhados”, acrescenta.

Mas há outras inverdades que o especialista aproveita para corrigir:

– ‘As hepatites são hereditárias, passando de pais para filhos’ – “Não, não são doenças hereditárias”, refere o especialista. “Mas é importante reconhecer quando uma grávida está infetada, para evitar algum risco de transmissão mãe-filho, que existe mas apenas na altura do parto”.

– ‘A hepatite C afeta apenas o fígado’ – “A hepatite C afeta sobretudo o fígado, podendo provocar inflamação, cirrose e, mais raramente, cancro do fígado. Mas podem existir outras manifestações, a que chamamos extra-hepáticas, nomeadamente algumas queixas de tipo reumatismal, mas são situações menos frequentes.”

– ‘A Hepatite C é uma sentença de morte’ – “De modo nenhum! Com os tratamentos atualmente disponíveis, a hepatite C cura-se em praticamente 100% dos casos.”

– ‘As tatuagens, manicure/pedicure e piercings não envolvem risco de transmissão de hepatite.’ – “Em todos estes casos, em que pode haver contacto com sangue através de objetos cortantes ou perfurantes, pode haver algum risco de transmissão destas infeções, mas apenas se houver má prática! Esse risco apenas existe se forem usados instrumentos não devidamente esterilizados ou que sejam partilhados por duas ou mais pessoas.”

O coordenador do NEDF refere-se também à hepatite A, chamando a atenção para o risco, partilhado “por qualquer pessoa que não tenha tido previamente a doença e que não tenha sido vacinada”. No caso das crianças, assegura “que a hepatite A é geralmente pouco grave e que, existindo no nosso país relativamente boas condições higieno-sanitárias, o risco de a contrair é cada vez menor”. No entanto, são estas mesmas condições sanitárias que acabam por configurar um risco.

“Até há algumas décadas, a maioria de nós contraía a hepatite A durante os primeiros anos, altura em que a doença é quase sempre pouco grave, após o que ficávamos imunizados para o resto da vida. Com a melhoria geral das condições económicas e sanitárias da generalidade da população, hoje a maioria das pessoas atinge a idade adulta sem ter tido contacto com o

vírus e por isso suscetível à infeção. Ora, a hepatite A é uma infeção geralmente benigna na infância mas quando contraída na idade adulta tende a ser mais grave, podendo nalguns casos pôr a vida em risco.” Aqui, a prevenção passa “pelo reforço de cuidados de higiene, já que a via de transmissão da doença é fecal-oral e, em situações em que as pessoas possam estar em maior risco, devem ser vacinadas”.

Arsénio Santos salienta ainda este Dia Mundial das Hepatites para deixar uma mensagem: “Todas as formas de hepatite são, atualmente, curáveis. A hepatite C tem cura com tratamentos que duram, na maioria das vezes, oito a 12 semanas. A hepatite B, embora exigindo muitas vezes tratamentos crónicos, é perfeitamente controlada com os mesmos, que impedem a lesão significativa do fígado.”