Número 24 – Certo dia numa tasca

Certo dia, na hora em que o Sol apontava para a linha do amanhã, decidi adoçar os lábios com as
uvas do Norte, daquelas que, de tão suavemente espremidas, pareciam tocadas pelas mãos vinícolas
de Baco. Não, não me afogo amiúde nos pélagos roxos limitados ao vidro, apenas senti um impulso
mais romântico do que viciante. Entrei numa qualquer tasca da Rua Direita, daquelas que exulta
Deus, Portugal e o Benfica no sarcófago do silêncio. Bastou observar, incumbindo aos olhos a
missão de ler aquela alma vadia, pobre mas infinitamente acima de um palacete. Alguns Homens ali
presentes, sentados à volta de uma mesa, saquearam-me ao girassol do espanto. Já não eram
Homens, eram potestades do mini-panteão viseense. Ali estavam Viriato, D. Duarte, Grão Vasco e
Almeida Moreira e António de Oliveira Salazar. Eu, beliscado por dentro, sentei-me por perto, com
ouvidos na mesa ao lado e lábios no copo de vinho.
– O sangue dos romanos era o néctar da Lusitânia. Nas poças encarnadas brilhava o reflexo de um
ideal, a independência, o dólmen largo da fronteira. Não carecíamos de um código escrito, pois a
identidade gravava-se no ferro da bravura; povo hirto qual planície rochosa. Viva a Lusitânia, pátria
de atávica resistência!
Viriato terminava a prosa de aromas agrestes e texturas chagadas, escudos de bandeira de pele.
D. Duarte, esmeralda da Inclita Geração, jaspe talhado da Coroa de Avis, bem cavalgou sobre a
palavra.
– Eu, do século mais português e cimeiro, vi o desbravar dos mares e a morte dos mostrengos,
metade do mundo no hemisfério das quinas. Viseu deu-me à luz e os meus olhos assistiram às
jornadas da grandeza.
Vasco Fernandes para os amigos, Grão Vasco para a eternidade, deu umas pinceladas de
interrupção.
– Fui a mão portuguesa que pintou o renascimento a tinta azul e branca na tela dos meus estros.
Viseu foi, pois, a semente florentina de Portugal.
O capitão Almeida Moreira, nobre fruto do pomar beirão, também quis participar:
– Dei a Viseu mais do que a mim próprio, o meu lar ao lar! O Museu do meu amigo Grão Vasco,
presente entre nós, nasceu do âmago exaltado que levo em mim, o Painel dos Azulejos, espelho
cerâmico das gentes da cidade, germinou do meu criativo.
Faltava Oliveira Salazar, majestade de fatos simples, iluminar a sua geração:
– Nesta cidade medrei em consciência política, agraciada pelos ocasos dos vales da Beira. Dou
graças à Providência o fortalecimento da fronteira e da virtude da Nação.
Bebi as gotas finais do meu copo de vinho e o som metálico das moedas caídas sobre o balcão
agradaram o dono. Também eu viseense, ainda que às portas do Olimpo, dei voz à actualidade,
dirigindo-me àquela mesa privilegiada.
– O Viseu dos dias de hoje respira a brisa dos predicados; os jardins são a maquilhagem do nosso
rosto; os costumes passeiam de peito em peito e a história transita da pedra para a alma. Estamos
gratos!
Os olhos da eternidade reluziram. Convidaram-me e bebemos juntos. Afinal, partilhamos a mesma
bandeira.
Francisco Paixão