O Auto Passado-Presente

O Passado e o Presente, amigos desde a fundação dos tempos, encontraram-se na Mesa dos Segundos, o umbigo de todas as gerações. Conversaram sem pudores ou muros impostos ao verbo. O Passado, impecavelmente vestido de sabedoria e virtudes, confrontava o jovem Presente, desleixado e um tanto confuso.

Passado – Ó Presente, tu cujo oxigénio é a actualidade, qual o rumo das mais frescas gerações?

Presente – Epá, tipo, vão tipo para ways muito nice.

Passado – Presente, provecto amigo, não ostentes já as joias verbais de nações além, que afrontas a língua portuguesa.

Presente – Mas eu falei, i guess, português.

Passado – Calamidade, ultraje! Amaldiçoas a pena de Fernando Pessoa, as rimas de Luís de Camões, o simples cruzar de perna de Cesário Verde. D. Afonso Henriques estará, certamente, desapontado, eu que assisti às suas bravas conquistas.

Presente – Quem é esse madjé, esse Afonso? Não foi o primeiro presidente de Portugal?

Passado – Maldição, a história da nação chora as lágrimas de feridas antigas. As quinas, na sua eternidade imobilizada, são cuspidas com palavras, ou falta delas. Meu Deus, Meu Deus, que futuro reservaste para este meu amigo de ponteiros?

Presente – Deus? O que é, tipo, isso?

Passado – Desgraças maiores que o Monte Horeb! Ai, que te colocas no mais profundo abismo, onde a queda é não chegar a queda. A Providência, maior que tudo e todos, remetida para a interrogação.

Presente – Vem tudo, né, de uma explosão buéda grande assim do nada. What the fuck?

Passado – E o que é feito das belas mulheres, superiores ao clarear da lua num sábado alentejano, fascinantes como a prata esguia do mar?

Presente – Hey, não fales fales assim da mulher. Ela é top. Tipo, homens e mulheres já não existem, ya? Somos só, tipo, humanos, i guess…

Passado – Ai, poesia agrilhoada, o mais cândido elogio amarrado às lutas. Como chegaste a esse ponto, Presente?

Presente – Aconteceram cenas.

O Passado regressou à casa das suas costas, desgostoso com o seu Futuro. Leu os clássicos mais ilustres, recuperando do trauma da gíria, orou a Deus, salvando-se das alucinações mais antigas que a Europa e admirou as silhuetas e frontes mais florais que ofereceu aos séculos.

 

Francisco Paixão