O Escriba

O número 5 da nossa rubrica destoa dos trabalhos anteriormente feitos. Não, desta feita não louvamos o veludo lírico de um poeta, o mármore melódico de um músico ou as aguarelas de um pintor. Louvamos outra arte, a arte onde o golo é o bestseller mais completo, com suspense, tragédia, romance e, em eméritos casos, história. Foi com João Madeira, um dos treinadores da formação do Lusitano de Vildemoinhos, que o idioma do futebol se compreendeu fluentemente, como um camisola 10 que afaga uma bola em romarias perfumadas.                                                                                                                  Fui recebido na sala de reuniões do Lusitano quando o sol se despedia para lá do horizonte. As paredes revelam o orgulho daquelas gentes bairristas, abundantemente adornadas com fotografias de equipas de variadas gerações, camisolas, troféus e um tributo a alguém que Vildemoinhos teve de partilhar com a nação: Carlos Lopes.                                                                                                          Começou, deste modo, a conversa com João Madeira. Futebol falado por quem sabe.

 

A oportunidade       

João Madeira já contava com experiência no mundo do futebol antes de surgir o convite do Lusitano. “Sempre vi no futebol uma paixão e experimentar o jogo enquanto jogador federado ofereceu-me noções básicas do jogo. Depois, ao formar-me como treinador, reforcei o meu conhecimento futebolístico. Fui incrivelmente bem-recebido no Lusitano, onde evoluí e cresci como pessoa e treinador”, revelou.                                                                                                                   No início da aventura, o jovem não expectava permanecer no clube de forma definitiva, assumindo a experiência como algo temporário, mas as suas valências e juventude convenceram os responsáveis do clube. “No começo era apenas mais um. Alguém que ajudava os treinadores durante o treino e mediava alguns problemas dos miúdos.”

 

Anatomia do treinador e da equipa

Esquivando-se de tópicos de natureza mais técnica, o nosso convidado optou por enfatizar duas palavras fundamentais: ambição e união. Define-se, pois, como ambicioso e aglutinador. “A qualidade técnica de um plantel é factor essencial, mas nada disso resulta se os miúdos não criarem laços de amizade, uma espécie de família de balneário. Tento transmitir às minhas equipas que são as vitórias que alimentam o clube.”                                                                                  Na inocência, as crianças vêem na bola uma amiga cuja fidelidade não se perturba nas derrotadas nem se renova nas vitórias. É fiel porque não os abandona. Ainda assim, pertencem a um grupo regido por regras e decisões, onde alguns destes petizes observam os colegas no lugar mais almejado: o da titularidade. “Trabalhar com crianças tem dois lados: é encantador ensinar alguém em tão tenra idade, mas existe a dificuldade de explicar determinadas situações. Por exemplo: o porquê de alguém jogar em detrimento de outro. Existem casos delicados que devem ser geridos com o maior cuidado, as crianças são muito vulneráveis.”

 

Formar um atleta para formar um homem

O desporto contém uma componente cívica e de transmissão de diversos valores. O atleta deve reunir predicados que ultrapassam a esfera meramente desportiva, privilegiando-se a sintonia entre qualidades humanas e técnicas.

Para Madeira, formar atletas implica formar homens, sobretudo nas camadas jovens. “Procuramos transmitir valores que consideramos indispensáveis em contexto colectivo e individual. “Nós” em detrimento do “eu ”, humildade em detrimento de arrogância, acima de tudo estes. Jogador de futebol ou qualquer outra pessoa que não tenha estes princípios, jamais singrará.”

 

O fascínio do Lusitano de Vildemoinhos

Afinal de contas, o que apaixona o treinador convidado dentro do clube da tradicional localidade de Vildemoinhos? “Primeiramente, move-me um sentimento de gratidão pela oportunidade. Depois, o profissionalismo ímpar de todos os membros da direcção e da coordenação, que me fizeram sentir em casa desde o começo. Muito do sucesso das nossas equipas deve-se a toda esta estrutura apaixonada pelo Lusitano. Falamos de um clube centenário, com uma massa associativa única em Viseu pelo seu forte bairrismo e tradição. É, sem dúvida, um clube que aprendi a admirar.”

 

Sobre o futebol de formação de Viseu

Existe qualidade? Sem dúvida. Existem condições? Dificilmente. Deparamo-nos com um problema: o jogador viseense, no seu engenho e talento, sente que os clubes da terra de Viriato não propiciam o seu crescimento, seduzindo-se pelas ofertas acenadas por emblemas forasteiros.                                                                              Madeira é contundente nesta matéria: “Existe talento em Viseu, mas é uma gota no oceano. Não conseguimos rivalizar com as condições apresentadas por clubes de outra dimensão, tanto o Lusitano como os outros clubes viseenses. A partir daqui, facilmente concluímos o porquê da ausência de jogadores formados nos seniores, o porquê da prata da casa escassear”, lamenta.                                                                                                                                             Segundo o próprio, são várias as razões para que este fenómeno se suceda: investimento, a questão dos pais, a questão geográfica e a logística.

 

Futebol como Arte

O breu restaurava o seu império diário quando nos debruçávamos sobre esta problemática: é ou não o futebol uma arte? O nosso treinador não tem dúvidas: “O futebol é uma arte no sentido de que existe criação, criatividade e espetáculo. Criamos modelos de jogo, improvisamos no decorrer das partidas, desenhamos planos de treino, entre outras coisas. A arte não se define igualmente pelas emoções? O futebol reúne todo o tipo de emoções.”                          E um breve silêncio de intimidade pereceu numa firme convicção: “Sim, o futebol é uma arte”.