“O Escriba N6: Viseu, Senhora da Europa”

Parte I
Viseu foi a casa do programa Europeade, consagrando-se como a capital europeia do folclore. A primeira palavra que achei no dicionário do meu coração para definir esta semana multicultural é alegria. Sim, alegria. Assumo-me como um patriota, um bairrista, alguém que coloca sobre o espírito a coroa da primeira dinastia e (re)conquista o país de norte a sul, em todas as suas tradições, costumes, tonalidades, aromas e gírias. Alguns chamam de folclore, eu prefiro chamar de identidade. Semânticas à parte, sinto-me orgulhoso enquanto viseense e português. Demos um exemplo notável de tolerância, abertura e hospitalidade. Cada bandeira europeia, orgulhosa do seu legado e cultura, foi hasteada sobre os céus viriatos, agitadas pelo nosso vento historicamente multirracial. Jamais vira tamanha vivência nas ruas de Viseu, pintadas com as várias cores do Velho Continente, musicadas com as diferentes notas dos idiomas e adornadas com sorrisos geográficos. Viseu orgulhou-me e fez-se orgulhar. Parabéns a todos os envolvidos e que todas as danças e ritmos dos participantes continuem no palco da memória de cada um.

Foto: Rui Cru

Parte II
Viseu tornou-se, digamos, num Portugal em miniatura. “Que significa isto”? – perguntará o leitor. Eu explico. A identidade da nação viriata, lusitana, afonsina ou camoniana (conforme os gostos), moldou-se com barro forasteiro e os oleiros fomos nós, os portugueses. O rosto da Europa acolheu nos seus traços, povos ilustres como lusitanos, romanos, suevos, árabes e judeus, muitos deles distribuídos em variados caprichos da bússola histórica. Diferentes idiomas, religiões, práticas, superstições, gastronomias e modelos políticos cruzaram-se no devir português. Isso torna-nos únicos, especiais. Somos o resultado do heterogéneo, do diferente. A história, generosa e coerente, ofereceu a Portugal a fortuna da diversidade, partilhada por todos aqueles que, como eu, exploram o nosso país sem pudor e estrangeirismo. O Minho difere de Trás-os-Montes, o Douro das Beiras, o Algarve do Alentejo, a Madeira dos Açores. Todos diferem entre si. Cada uma das regiões é um tecido de diferente textura e cor. Juntando todos, urde-se uma só bandeira.