Poeta Intruso – Entrevista a Francisco Paixão

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  • Foi no cruzamento das duas dezenas que o meu nome ocupou a pedra humilde deste espaço. Sou poeta, fiel escudeiro das palavras. A poesia é o oxigénio da minha presença! Recolhi através das redes sociais algumas perguntas levantadas pelos leitores mais curiosos, aos quais agradeço a colaboração e interesse.

1 – Quando encontraste o gosto pela escrita e o que te motivou a seguir em frente?

Sempre me vi como um romântico. Desde tenra idade que sinto necessidade de expressar sentimentos de forma mais vincada do que os outros. Aos 13 anos de idade escrevi a minha primeira história “Teodora e a Espada Dourada”, inspirada na Fada Oriana da Sophia de Mello Breyner. Escrevi o meu primeiro poema com 14 anos, numa ode ao triunfal primeiro amor. O que me motivou a continuar foi, acima de tudo, a preservação de momentos e sensações por escrito e o simples prazer de criar.

2 – Quantas obras já editaste?

Tenho duas. Uma obra chamada Velha Irmandade, que homenageia o meu passado de Liceu na companhia de quem mais amo, com destaque particular para os meus amigos de infância. É seguido, depois, de uma prolepse. Posso chamá-la de autobiografia romanceada. No fundo, aquele grupo de amigos representa o que idealizo para a sociedade: união, lealdade, companheirismo, bairrismo, fé, melancolia poética e felicidade.

O segundo livro intitula-se “Imperfeição das Cadências do Ego”, obra poética. Cada nome corresponde a um livro diferente, compilado num só. Tem mais de 300 poemas com um arco-íris temático: amor, família, pátria, a minha fé em Deus, natureza, amizade, vida de campo, vivência citadina, sociedade, nostalgia, passado, psicadalismo, história, ficção, memórias. No fundo, as cadências do meu ego, imperfeitas por não serem uniformes.

3 – Com que idade os lançaste?

O Velha Irmandade com 17, o Imperfeição com 19.

4 – Projectas um novo?

Sim, em breve cumprirei um sonho: editar uma obra infanto-juvenil. Chamar-se-á “Bolachas da Avózinha – Contos e Fábulas”. É um estilo que me apaixona na leitura e na criação. Como um

amigo meu classificou: “literatura de conforto.” É o tipo de livro que todos devem ler perante o estalar de uma lareira ou com a suave luz de um candeeiro, acompanhados de um chocolate quente.

É um livro para crianças e para quem deseja ser criança.

5 – Como te classificarias enquanto artista?

Gosto muito da palavra “romântico”. Nada me define melhor do que isso, como pessoa e como artista. A minha poesia nasce do mais puro olhar de quem se rende aos braços da simplicidade. Se passear com a minha namorada e encontrar uma flor à beira rio, o nome “Flor à Beira Rio” ecoa na minha alma durante a tarde. Depois trato de lhe dar vida; se passar uma tarde com amigos de infância, sinto a vontade de viajar para o meu passado e escrever sobre os nossos tempos entre o nosso bairro e o Liceu; se viajar pelo país com a nossa família e conhecer uma vila, aldeia ou cidade que me encha as medidas, homenagearei esse local com um poema. A poesia é a pedra onde registo memórias, sentimentos e momentos. Costumo dizer que a poesia faz-se de fora para dentro, a poesia está nas ruas.

Não posso deixar de realçar a versatilidade da minha escrita, da qual me orgulho. Faço prosa, prosa poética, fábulas, poesia épica, poesia trovadoresca, poesia popular, hinos. Também tenho um heterónimo campestre, Sílvio Sermo, de Ponte de Lima. Já usei a multimédia como veículo de expressão poética, com música, representação e declamação. Tenho vídeos como A Rapariga Dos Collants Vermelhos, Borboleta Monarca, Mulher Na Noite Vazia e Claustros Brancos, uns mais produzidos que outros. Num outro registo, escrevo artigos de opinião e entrevistas no nosso jornal. Ambiciono, um dia, escrever uma peça de teatro ou um anime.

6 – Onde encontras inspiração para os teus poemas?

Por vezes é a poesia que vai ao meu encontro. É raro sentar-me à mesa e esperar pela inspiração.

As minhas inspirações são como rios humildes correndo dentro de mim. Inspira-me a natureza, o patriotismo, a família, Deus, história, tradição, vida popular, o bairrismo, o amor, a amizade, a família, o passado, o campo e a cidade. Reforçando: um pardal pousado sobre uma fonte, uma paisagem e o movimento do meu bairro têm o mesmo potencial lírico.

Se falar de inspirações artísticas, tenho várias, algumas delas longe da órbita da poesia. Fernando Pessoa, Cesário Verde, Luís de Camões, Miguel Torga, Júlio Dinis, Sophia de Mello Breyner e Alexandre Herculano, Mario Puzo, Salmos Bíblicos e poetas gregos. Fora da poesia adoro The Beatles, José Cid, Sam The Kid, Dillaz, Genesis, Beach Boys, Queen, Miguel Araújo, Rui Veloso, etc. As inspirações não devem cingir-se aos protagonistas do nosso tipo de arte.

7 – Tens um poema que consideres mais especial do que os outros?

Todos eles são especiais à sua maneira, pelo contexto em que foram escritos, pelo tema ou pela estética. Costumo dizer que as criações de um autor são filhos de espírito e nenhum pai prefere um filho ao outro. Agora, obviamente que tenho uns melhores do que outros.

8 – Para quando um livro de ficção?

Está nos meus planos, sem dúvida. Tenho alguns poemas ficcionados, o futuro livro terá vários contos, mas ainda não produzi nenhuma prosa de ficção. Gostava de escrever um romance inspirado no estilo do Nicholas Sparks, uma história sobre máfia e uma obra apocalíptica.

9 – Sofres preconceito de outros poetas pela tua visão diferente de fazer poesia?

Um bocado, não vou mentir. Existe um exército de apropriação estilística em todos os lados do mundo. São pessoas que entendem que a poesia é exclusiva de alguém com determinadas simpatias políticas, visões sobre a sociedade ou modos de vida. Sem rodeios: conservadores como eu são negligenciados apenas pelas suas posições. Quem pensa assim não percebe nada de poesia.

10 – Por que razão utilizas a expressão Eterno Tem Três Letras?

Muita gente coloca-me essa pergunta. Tornou-se na minha assinatura artística que tem triplo significado. Simboliza o Pai divino, o meu pai e a minha mãe. É uma trindade de letras.

11 – Achas que o público em geral gosta, reconhece e considera a poesia como uma forma de literatura em paralelo com a prosa?

Infelizmente, não. A partir de determinada geração incutiu-se a máxima de que a poesia é aborrecida, algo que se fixou na mente dos mais jovens. A poesia, em termos de interesse do público, está num patamar abaixo da prosa. A teoria que tenho é que embora a prosa nos tenha oferecido obras notáveis, a sua leitura é mais fácil pela quantidade de floreados que tem, enquanto que os poemas são incisivos e directos.

12 – Face ao desinteresse que existe pela arte da poesia entre os jovens de hoje em dia, como fugiste à regra?

Sou um grande opositor da mediocridade cultural e artística que vigora entre as novas gerações. A partir dos anos 70, daquilo que estudei e consumi, deu-se espaço para a relativização das verdadeiras qualidades da arte. Sou um grande apologista do ideal grego “kalos, kai, agathos”: bom, provecto e belo. Como disse anteriormente, a poesia nasceu em mim como nasceu na humanidade, pelo desejo de expressar sentimentos e ideias. Compreendi com o tempo de que era algo inato à minha condição e nunca mais parei. Tenho poucas certezas na vida, mas uma delas é de que a poesia não me abandonará e espero que esta postura sirva de exemplo para os mais novos.

13 – A poesia aprende-se?

Não. As pessoas estão fadadas para determinadas vocações, é algo intrínseco espiritualmente. Nada mais explica como é que crianças-prodígio, por exemplo, conseguem pintar quadros de incrível beleza e complexidade. Para um verdadeiro criador, dar vida à sua arte é tão natural como o ar que respira ou o sangue que circula nas suas veias. Tudo o que não seja isso é forçado e plastificado.

14 – O que te motivou a escolher o curso de História?

Licenciar-me em História foi muito importante até do ponto de vista criativo. Entendo, como sempre entendi, que saber história é fundamental para compreendermos o presente onde nos situamos. Como disse Cícero, “a história é a testemunha do passado.” Sem ela é impossível atingir a compreensão.

15 – Como licenciado em História, algum dia pensaste em todas as semanas colocares no jornal uma pequena biografia dos viseenses mais ilustres?

É, sem dúvida, uma ideia brilhante. É justo homenagear os vultos da nossa história, da nação à cidade, da cidade ao bairro. É um dever manter viva a memória, contributo e legado de quem lutou e idealizou Viseu como hoje conhecemos. Felizmente temos grandes nomes para explorar e, dessa maneira, expandir o conhecimento dos nossos conterrâneos.