Recusar as Ruínas

 

Quem me conhece sabe que sou um diletante lusitano. Que abdico do estrangeiro para visitar e conhecer as flores mais perfumadas do nosso jardim mediterrânico. Todavia, sendo patriota, algo me entristece na letargia e estética duvidosa de alguns municípios. Findo o Estado Novo, encetou-se um movimento urbano que apelidaria de “descaraterização patrimonial”. Perguntar-se-á o leitor: ««o que será isso?»» É simples. Algum do nosso património envolve-se numa cintura aberrante de comércios convencionais. Toleraria somente a existência de comércio tradicional, que ajudam a suportar o peso da história e do antigo, nunca ruas dúbias de encanto, onde se cruzam capelas medievais e uma enorme fotografia de uma jovem promovendo ginásios ou marcas de roupa e outros letreiros berrantes gritando franchising’s desviados. Absurdo! Assemelha-se isto a manchas bolorentas nas paredes de qualquer palácio de esmeralda.

Cidades como Tomar, Évora, Guimarães, Viseu, Braga ou Tavira, por exemplo, fazem um trabalho meritório no sentido de contrariar esse pecado visual, com apostas claras e firmes na preservação do património e, não menos importante, do ambiente histórico que se exige. O Convento de Cristo, o Templo de Diana, o Castelo de Guimarães, a Sé de Viseu, o Bom Jesus e a Ponte Romana namoram os séculos da suas origens e engraçam com algumas décadas posteriores. É evidente a preocupação de empregar esforços na restauração de edifícios antigos que circundem as grandes atracções patrimoniais das cidades, algo que assegura a sua identidade histórica e urbana.

No entanto, nem tudo é um mar de rosas no âmbito patrimonial. Existem edifícios antiquíssimos, senhores de excelsos encantos e fontes de suspiros, que não merecem a devida atenção de quem efectivamente pode promover iniciativas que resultem na restauração ou requalificação destes. Exemplos? Existem vários: Castelo da Dona Chica (Braga), Palácio de Midões (Tábua), Casa do Professor (Oliveira de Azémeis), Convento de S.Francisco do Monte (Viana do Castelo), Convento de Seiça (Figueira da Foz), Pavilhões do Parque (Caldas da Rainha) e

Sanatório do Caramulo (Tondela), são alguns dos exemplos que corroboram as minhas palavras, todos eles com potencialidades turísticas, económicas e culturais, manifestamente ignoradas e descartadas por quem de direito.

Outro aspecto a considerar é a gélida indiferença municipal em relação a algumas casas antigas espalhadas pelas cidades portuguesas. Com o devido restauro, política levada a cabo por outros países europeus, estariam capacitadas para acolher variadas famílias, preservando o seu encanto secular. Muitas del1as encontram-se à mercê do musgo e das fendas, perfeitamente descaracterizadas, quase instrusas no solo onde foram erguidas.

A modernidade e a tradição não combinam e os séculos são irmãos de costas cruzadas. Em vez disso, constroem-se edifícios de habitação tão sórdidos como o hálito do diabo. E pior: misturadas com as casas antigas atrás escritas. Porque é que acolhem a segunda via? Todos sabemos porquê. Portugal é dos mais belos e variados países do mundo, mas depende de nós a preservação do seu esbelto rosto geográfico, do mesmo modo que uma mulher, agraciada pela natureza, poderá perder a virtude se experimentar maus vícios.

Francisco Paixão