STEFANIE: EXEMPLO DE FORÇA E QUERER, NA LUTA PARA VENCER DA DEFICIÊNCIA …

Stefanie, moça de 29 anos, de nacionalidade portuguesa, com graves deficiências, que vem, do nascimento ocorrido na Suíça, sem braços e anã, encontrou soluções para fazer uma vida como qualquer outra pessoa fisicamente dotada dos membros superiores e inferiores.

Perante este facto que a poderíamos apelidar de heroína, recusa possuir tão alto valor humano para nos dizer placidamente, objetando o seguinte:

– Na verdade, não me sinto bem que me classifiquei como heroína, nem coitadinha, quero, apenas, e tão somente, ter um percurso de vida normal como qualquer pessoa fisicamente perfeita”.

Convictamente, verificamos que, no sentir de Stefanie, mantém a moral em alta, com uma forte personalidade, ao reparar que as pessoas fisicamente perfeitas, escrevem com a mão esquerda ou direita e a Stefanie juntava a ponta de ambos os braços para assim segurar a caneta, e concluir o curso superior numa universidade de Lisboa.

  • Não sei o que lhe diga, mas as pessoas habituam–se com aquilo que tem. Como se diz: “Quem não tem cão caça com um gato…”

  • E se hoje, assim é, não o considero, nem me sinto orgulhosa por essa conquista, mas, sim, por fazer uma vida normal, igual às outras pessoas, nem mais, nem menos”.

Realisticamente, foi toda essa personalidade e modéstia que nos levaram a divulgar toda a história de vida de uma mulher de rosto muito bonito, cheia de saber e de determinação, acima da maioria das pessoas, uma mulher incrível que nos leva a dar a conhecer o seu estilo de vida e o modo como se adaptou para trabalhar e ser um elemento útil e de valia à sociedade que, nem sempre, compreende aqueles que andam de cadeira de rodas. As graves deficiências de que foi vítima à nascença, deram lhe, seguramente, mais força, saber e razão de viver.

  • É verdade, assegurou Stefanie. A minha história de vida, vou conta – la por, eventualmente, poderá dar ânimo a outras pessoas com deficiência poderem aproveitar algo que as possa, com a minha auto estima, possam também elas, vir a ter uma vida normal, estudando e tudo o mais, de modo a que a deficiência não possa ser encarada como algo que nos diminui, mas que possamos aprender superiormente, de modo a criar em nós uma personalidade forte e convicta, para poder viver sem complexos, perante pessoas saudáveis fisicamente, mas diminuídas por faltas de conhecimentos”.

Como foi a vida infantil de Stefanie?

  • Poderei dizer de sucesso. Quando atingi a idade escolar, minha mãe não permitiu que, apesar de ser deficiente, estudasse numa escola privada, iria sim, para uma escola pública, de modo a enfrentar, desde logo, as outras crianças ditas normais, ou seja sem deficiência.

  • Ali estudei até ao nono ano, que o conclui com sucesso.

  • Depois, vim para Portugal. Frequentei a Escola Profissional de Torredeita, onde conclui o curso profissional de Técnica de Comércio, escola esta que me formou também em muitos outros valores humanos, além dos constantes no programa de exame.

  • Não parei por aqui, e fui até Lisboa para a Escola Superior de Educação, faculdade onde obti o curso de publicidade e relações públicas, para além do estagiei.

  • – “Não gostei da vida da capital, por ser muito movimentada, sem ter boas acessibilidades, muito complicada para quem se movimentava em cadeira de rodas no metro e em outros meios de transporte públicos; daí que tenha regressado a Viseu, cidade de que muito gosto”

  • – Com todas as suas deficiências, como foi possível obter a carta de condução?

  • – Obviamente, não foi nada fácil. Depois de me ter sujeitado a várias juntas médicas, para o efeito, e designadamente, todas foram unânimes que jamais poderia obter aquele titulo para conduzir veículos automóveis.

  • Ciente das minhas capacidades e vontade em vencer, disposta mesmo em ultrapassar o que os médicos diziam e atestavam ser impossível, fui ao Porto.

Acreditaram em mim e depois de autorizarem fazer algumas adaptações no automóvel, foi permitido ir a exame no qual fiquei aprovada.

Feliz com este novo título, que modificou o modo de vida e de viver, fiquei pela Invicta Cidade a trabalhar, mas Viseu estava no meu desejo como a melhor cidade para viver, e voltei, como o bom filho… consegui emprego a trabalhar noutro área que não a minha, mas numa outra de que gosto de atendimento ao público.

  • Agora com a sua vida concretizada, com 29 anos de idade, entra numa outra luta liga ao bem estar de pessoas deficientes? !

  • Na realidade, sim! Há uma lei, relativamente às acessibilidades, nas vias e espaços públicos, em que houve uma tolerância de 10 anos para que fossem dadas condições aqueles espaços. Esse tempo de tolerância acabou à dois anos e muitos desses espaços públicos continuam sem ser solucionados. Ora estado de faltas, terá que ser denunciado por estarmos perante uma situação que afeta gravemente os deficientes; no entanto e em abono da verdade que a Câmara Municipal de Viseu, nestes últimos dez anos fez obra, nesse sentido proporcionando melhores acessibilidades.

  • Há países que não tem nas ruas nenhum degrau o que facilita enormemente a mobilidade e evita muitos desequilíbrios a provocar fratura para aqueles que não contam com o degrau abrupto.

  • Agora o tempo é outro, dando mobilidade a quem dela necessita para se movimentar. Os dez anos de sensibilização passaram, agora estamos no tempo de fiscalização. Ou seja, houve dez anos para se adaptar e agora é tempo de fiscalizar e autuar. Se, na verdade, existe uma lei e a consequente coima, para quem não cumprir, então por que não atuar?

  • Mas, pior, prosseguiu Stefanie, há dias fui autuada por ter estacionado o meu carro num local reservado à PSP, em consequência dos dois espaços ao lado reservados a deficientes estarem ocupados por carros sem o símbolo que lhe desse esse direito. Paguei a multa, estava convictamente em transgressão. Mas, logo indiquei a ilegalidade dos dois lugares ocupados por veículos que não pertenciam a pessoas deficientes.

  • Este alerta dessa transgressão, aos agentes, não valeu de nada, por ali ficaram, sem nada, de nada, que acontecesse.

  • Por que esta imparcialidade. Autua–se um deficiente por encontrar os lugares que lhe são reservados ocupados por veículos em transgressão, e deixa – se estes sem a consequente punição.

  • São estes casos que devem ser denunciados e da minha parte tudo irei fazer para que a mobilidade em Viseu seja exemplo para outras cidades.

     

    Fernando de Abreu