Viseu aos Viseenses

No mês passado, ainda na senda mágica do Natal, beijei a mão do meu suserano interior, prestando obediência às mais simples demandas do espírito. Explorei, como é costume nas pautas da melodia do Eu, as ruas históricas da nossa cidade. Gosto de consumir até ao tutano todo o encanto do comércio tradicional, as montras expostas numa delicadeza tão pueril como camponesas colhendo papoilas, os aromas a mofo que parecem ter rugas, as alianças do enchido com a louça ou da cavaca com a madeira. É o hoje reconhecendo-se no ontem. Se alguém persegue a identidade de um brasão, siga pelo endereço da história. Uma dessas lojas, situada na Rua D. Duarte, cativou-me acima das outras. A sua vitrine protegia uma família de bonecas alinhadas, como se de uma cortesia se tratasse, daquelas que sempre remetemos para o imaginário das nossas mães e avós. Entrei. Tinha a decoração ordenada pelo espírito luso, com provas da nossa fé, lealdade à cortiça e serenatas à louça. A dona da loja, de uma simpatia contagiante, acabou por expandir as suas lamentações. Conversa para cá, conversa para lá, permaneci 1 hora junto da amável comerciante. Partilhava-me as suas histórias e vivências com a nostalgia de um comércio tradicional vivo e pujante. Hoje, segundo as suas palavras, o comércio central não recebe os apoios municipais de outrora e não existe nenhum incentivo para que as gerações mais jovens aprendam quão importante é a tradição de uma cidade.
Foi noticiada recentemente a trágica situação da Rua Direita, cada vez mais delgada de mercado em virtude do encerramento de lojas.

Tudo isto é sintomático de uma geração cada vez mais desinteressada e separada das suas raízes, na flácida tendência de que o além-fronteiras é o ocaso da existência. Nada mais falso.
Os turistas e os seus olhares passageiros, com todo o respeito que nos merecem, não podem ultrapassar os viseenses nas filas prioritárias. Viseu aos Viseenses!

Francisco Paixão